Mies e Romano Guardini – Cartas para o Lago de Como

Mies em sua palestra em 1928 (em NEUMEYER, 1991, p. 299) intitulada de ‘Precondição do fazer Arquitetônico’:

A arquitetura não era um problema apenas da construção, no sentido da organização dos espaços e da economia. Era sim algo relacionado ao espirito, mas no sentido da arte de construir, e só poderia ser desvelada através do espirito e este como sendo o foco da concepção do projeto, como também só poderia ser compreendida através da relação do criador com o mundo real.

Poderíamos associar que a ‘arte de construir’ que Mies menciona em seu discurso seria o dialogo do homem com a natureza demonstrando como este consegue dominá-la e não ignorá-la. Talvez, por isso, a arte de construir para Mies fosse “a execução espacial das decisões do espirito”  (Mies apud NEUMEYER,1991, p. 299).

O texto o qual retiramos a citação acima deixa muito claro as ligações com Romano Guardini (1885, Verona –1968, Munique), considerado um dos mais importantes intelectuais católicos do início do século XX, que assumiu em 1923 a cadeira de filosofia da religião na universidade de Berlim. Romano Guardini traduziu em seus livros uma linguagem moderna dos pensamentos de grandes filósofos como Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Nietzsche entre outros.

Observamos em Neumeyer, (1991. p. 267), através das anotações do caderno de Mies datado aproximadamente em 1927, que Mies parecia estar profundamente ligado a Romano Guardini, em especial ao livro “Cartas do Lago Como” (escritas em 1923- publicadas em 1926).

Neste livro, Guardini inicia perguntando como as máquinas estão moldando a cultura, a natureza e a humanidade. Certamente deveria haver um problema na nossa cultura, uma vez que nunca havíamos tido uma relação com a natureza de forma tão intacta.

Assim, Guardini (1926) nos pede para considerar um navio à vela, que “ embora seja de peso considerável, o homem consegue através da manipulação da madeira do casco e linho da vela, mas juntamente com a força do vento, fazer com que este flutue pelos mares através de uma combinação perfeita. […] Temos aqui um legado antigo de forma”, diz ele. “Você não vê que este é um fato notável da cultura, e que está presente quando o homem domina o vento e a onda através a combinação de madeira e linho?”.

Mas, o domínio da natureza que Guardini se refere ao domínio completo sobre a natureza. “A nosso lar“, diz ele, “não é a natureza, mas a cultura […]. O universo humano deve colocar as coisas naturais e suas relações em uma esfera diferente do que é pensado, estimado, demandado, criado e de alguma forma, sempre partir da natureza, mas na esfera cultural”.

Ainda que o homem domine natureza através do barco a vela, ele ainda pertence a ela, pois só fazendo parte dela e levando a natureza em consideração poderia dominá-la com suas máquinas. Segundo Guardini (1926) aqui verificamos a verdadeira cultura. No entanto, um barco a vapor nada mais é que uma diferenciação aquém da natureza. Para Guardini (1926) ninguém neste navio está em harmonia vital ou faz parte da natureza. Este navio atravessa os mares independente das ondas ou do vento.  As pessoas a bordo comem, bebem, dormem e dançam independente de onde estejam. Como se estivessem em suas casas fixas na terra. Assim, o navio a vapor nos mostra que o homem não está mais em harmonia com a natureza. Esta seria a artificialidade da nossa existência que a era tecnologia trouxe.

Guardini busca em “Cartas do Lago” como sugerir que o domínio da natureza não precisa e nem significa perder a integração do homem com ela. E é o que verificamos que Mies quer buscar em sua obra, um contato com a natureza e o faz através da tecnologia.

Observamos em algumas passagens deste caderno, anotações como “Sailboat as technology” (NEUMEYER,1991, p. 277), “Human world distances itself necessarily from natre. In a spheral of culture. In this cultural world lives man, in pure nature the animal, to be human means to be spiritualized” (NEUMEYER,1991, p. 281) e “sailboat, built since Roman times. Primordial form legacy. Fulfilment of the law. Balenced atitude. Corect relationship of man to natural forces“ (NEUMEYER,1991, p. 282).

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